"Mulher com um ancinho" (1856-57), releitura de Jean François Millet
História e detalhes
Gente simples bebendo, pedintes pitorescos e casais humildes em chalés: esses até podiam-se aceitar, mas um camponês trabalhando? Uma tal cena, ousada em sua simplicidade, jamais havia sido pintada em toda a história da França. Nunca – até Millet.
Jean François Millet foi o primeiro artista a considerar o trabalho rural um assunto digno das telas. E pintava essa realidade com maestria porque não era a vida dos outros que estava representando: era a sua própria.
Criado em uma pequena vila francesa, como filho mais velho em uma família de poucos meios, teve de ajudar seu pai no labor agrícola por muito tempo. Arar, semear, ceifar, fazer feno... Tudo isso se enraizou em sua alma de tal maneira que, anos mais tarde, foi incapaz de suportar a vida na cidade. "Como camponês nasci e como camponês morrerei", ele disse. "Direi o que sinto e pintarei o mundo como o vejo."
Farto de retratar coisas que não queria, mas que agradavam ao público, Millet se dispôs a expressar com tinta o real conteúdo de sua alma, enfrentando por isso fortíssima rejeição nos círculos oficiais da arte. Algumas de suas obras primas foram vendidas por valores irrisórios na época.
As figuras de Millet – hoje vistas, por vezes, como o ápice do realismo – ilustram o ciclo de vida no campo e são permeadas por uma profunda melancolia, mas também por dignidade e afirmação da vida. A dureza e a monotonia da existência rural se misturam aos valores da paciência, do hábito e da resiliência. Era ali no esforço diário, e em nenhum outro lugar, que o artista via humanidade e poesia.
"Mulher com um ancinho" é uma das dez pinturas da série Trabalhos no campo de 1853, e centraliza a contribuição feminina, em tons de siena, verde e azul, com respeito e ternura.
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